Memórias em tempo real

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O safado do Palandi está rindo no canto da boca. Tenho certeza. Sempre fui reticente em ter um blog. Mas, ei, me perdoe. Sou um cara das antigas. E quando essa ferramenta foi criada, a tal blogosfera era tomada de gente relatando o café da manhã e o banho frio que tomou. Hoje esse papel é do Instagram e do Facebook. 

De uns anos pra cá, de uma certa forma, tive alguns blogs. Cheguei a abastecer três ao mesmo tempo com informações de qualidade duvidosa numa empresa que trabalhava. E confesso que nos últimos meses senti falta de ter um espaço para regurgitar algumas ideias que vão pintando. Por isso, sim, meu caro Palandi, agora tenho um blog. 

As coisas mudam. Em julho do ano passado não pensaria que tanta coisa ficaria diferente. Os pensamentos acompanharam, várias certezas mudaram de time. A vontade de escrever aumentou. Afinal, foi assim que aprendi a me comunicar. Estava fazendo falta. 

Depois de tempo demais fora da estrada, trabalhando numa viagem que nunca teve nada a ver comigo, dando satisfações para quem nunca fez por merecer, começo a colocar tudo de volta nos trilhos. Como bem sabe Ed Bloom, depois que o tempo para, ele volta acelerado e não é fácil acompanha-lo. Mas a gente chega lá. 

O fato é que o que sobrou desse erro de cálculo de quase sete anos foram as amizades que nasceram dali. E algumas memórias boas, (poucas) lições valiosas, (vários) momentos absurdos. Bons combustíveis para a escrita. Papo filosófico de boteco, um tema caro por aqui. E é mais ou menos sobre isso que o grande João Pereira Coutinho escreveu na Folha de S. Paulo de hoje. Leia abaixo. Queria fazer a estreia por aqui com um texto genial, mas o mestre português foi mais rápido hoje. Prometo melhorar e ser menos sentimental daqui pra frente. 

Os falsários

Memórias falsas. Eis a nova descoberta científica publicada em revista da especialidade. Segundo a “Science”, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology conseguiram implantar memórias falsas no cérebro de ratinhos. Já tinham cometido uma outra proeza no passado: apagar certas memórias. Agora, o desafio foi implantá-las. Conseguiram.

Ainda estamos longe do Santo Graal: apagar más memórias e, se possível, conferir a cada ser humano um passado glorioso. Mas o futuro, tal como o passado, promete. Ou não promete?

Robert Nozick (1938-2002), um dos grandes filósofos do nosso tempo, achava que não. No seu magistral “Anarchy, State, and Utopia”, Nozick pedia-nos para imaginar a seguinte situação: existe uma máquina do prazer a que os seres humanos se podem ligar. E, por esse simples processo, ter prazer a vida inteira. Quem daria o primeiro passo?

Poucos. Existe algo de incômodo na ideia de uma felicidade eterna, porém falsa. E esse incômodo tem nome: verdade. Ou, para usar uma palavra cara aos românticos, “autenticidade”.

Nós não queremos apenas que as nossas vidas sejam felizes. Queremos que essas vidas sejam autênticas e que a nossa felicidade seja o resultado de experiências, méritos ou virtudes reais.

Se tudo fosse resumido a critérios de prazer e desprazer, ninguém hesitaria em ligar-se à máquina de Nozick. E, no entanto, a maioria hesita.

Não conheço crítica mais devastadora ao utilitarismo nos tempos modernos. Seguindo o cálculo hedônico, o que interessa é proporcionar a maior felicidade ao maior número?

Não necessariamente, afirmava Nozick. Se a felicidade humana não é humana, ela perde qualquer valor para nós.

E o que é válido para a felicidade é válido para a infelicidade. Até porque a segunda é condição para haver a primeira.

Ironicamente, uma máquina de prazer permanente deixaria até de proporcionar prazer. Porque deixaria de haver contraste com as restantes iniquidades da existência: habitaríamos apenas um estado de normalidade entediante em que nada seria importante porque nada seria valorizado em si mesmo.

Sabemos o que é a felicidade porque sabemos o que é a infelicidade. E também porque aprendemos algo com as nossas infelicidades.

“Aprender” é o verbo: implantar memórias falsas já seria uma aberração ética. Mas apagar as más é mais que isso: é uma aberração epistemológica.

Sofremos como cães pelos erros que cometemos. Escolhas profissionais lamentáveis; amores cultivados e frustrados; atitudes egoístas, covardes, impensadas –quem atira a primeira pedra?

Mas sofremos e, com sorte, aprendemos. E existe algo de libertador (e de redentor) quando seguimos em frente e somos capazes de reconhecer os mesmos dilemas, as mesmas tentações, os mesmos traços de caráter –em nós e nos outros. E, claro, as mesmas consequências prováveis de certos atos e omissões.

É então que o passado, e sobretudo o insuportável passado, se torna nosso tutor privado: ao segredar-nos o que devemos evitar e abraçar com conhecimento de causa.

Todos precisamos de más memórias para evitar cometer os mesmos erros. Apagar essas memórias seria uma forma de nos condenarmos a sofrimentos perpétuos. E a apagamentos perpétuos. E a sofrimentos perpétuos. E a apagamentos perpétuos.

Talvez eu esteja sendo injusto. Talvez o objetivo das recentes descobertas seja outro: aliviar o sofrimento de soldados em situações de combate, por exemplo, apagando experiências traumáticas e colocando tardes de verão onde antes havia destruição e morte.

Sem falar de vítimas de crimes ou acidentes para quem um “reset” mental seria uma benesse. Sobre esses casos extremos, manda a prudência que nada diga.

Mas será preciso lembrar como as sociedades contemporâneas foram medicalizando os mais básicos sentimentos humanos –o medo, a ansiedade, a angústia– procurando uma resposta química e imediata para eles?

Se hoje declaramos guerra às tristezas presentes, por que não declarar outra contra as tristezas passadas?

Quase todos recusamos a máquina de prazer de Nozick. Mas às vezes pergunto se o fazemos mesmo por questões de princípio –ou pela razão mais prosaica de que essa máquina não existe ainda.

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One thought on “Memórias em tempo real

  1. o Brasil ficou 12,8% melhor com a sua decisão de abrir esse espaço. estou rindo de canto de boca, mas com o resto dela lhe dou as boas-vindas.

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