Precisamos de mais gente com fé

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Quarta-feira de cinzas e eu estava a caminho de uma audiência pública do Papa Francisco na Praça de São Pedro, no Vaticano. Foi ali que tive uma visão. Acredito que esse é o tipo de lugar propício para visões há mais de dois mil e dez anos. Fazia frio, muito frio, principalmente pra gente que mora nos trópicos. Esperando para atravessar a rua, dois padres ao meu lado, com seus hábitos e chinelo, sem se preocupar com o frio. São homens de fé, o que acreditam vai muito além de usar meias e cachecóis. Gente de fé faz falta nesse mundo ultra-individualista que vivemos, mundo em que todo mundo diz que luta por algo, mas não sabe direito dizer que algo seja esse.

A visão foi mais ou menos essa. Hoje temos um milhão de informações por segundo, acreditamos em várias coisas e não temos a menor pista do que realmente queremos. Diariamente inundamos as redes sociais com mensagens sobre como é bom ser feliz, mas o que é essa tal felicidade? Dia desses encontrei um grupo de teatro de São José dos Campos que reclamava de como não tinha verba para trabalhar e viver da arte por aqui. Tinham um leque de reclamações mas nenhum texto, projeto concreto e nenhum queria mesmo se esforçar pra fazer acontecer. Faltava fé.

Uma amiga sonhava em ser arquiteta, tem bom gosto, estudou certo, sabe tudo de Corbusier, Gaudí, etc. Arrumou um emprego num escritório interessante em São Paulo, coisas no eixo. Mas não aguentava a pressão dos chefes, pegar ônibus lotado, o cinza dos prédios e das pessoas na capital. Entrou numas que gostaria de fotografar, voltar para o Vale do Paraíba. Voltou. Faz um ano que está aqui e não deu um clique sequer. Reclama. Falta fé.

Essa falta de fé – e quando falo de fé, não falo em qualquer divindade, mas falo em acreditar em algo, na vida, na sua profissão, nos seus princípios – está construindo uma geração de desistentes. Gente que quer viver do que acredita, mas esquece que é preciso lutar, suar, cair, passar apertado para que isso aconteça. É a tal penitência, a quaresma, que temos que passar para sermos abençoados com a oportunidade de vivermos de arte – seja qual for a sua. É duro, mas se você acreditar, ganha força para passar pelos obstáculos. Vivemos numa região católica. E também vivemos numa região rica de investimentos, rica de cenários, rica de inspiração para fazer música, teatro, literatura, filmes, fotografias. Mas, como disse Paul McCartney, “arte é 90% transpiração e 10% inspiração”. Até virar o maior nome da música pop dos últimos 50 anos, Macca comeu o pão que Robert Johnson amassou. Você está disposto a isso? Espero que sim. Faça sua penitência, sua quaresma. Acredite. Precisamos de crédulos, de gente de fé. Só assim teremos uma cultura original, algo que teremos orgulho de mostrar por aí. Tenha fé – em tempos cínicos, acreditar é a atitude mais rock and roll a se fazer. 

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A trilha desse artigo é de Sixto Rodriguez. Esse americano de Detroit gravou alguns discos nos anos 1960, sem repercussão alguma. Sumiu. O que ele não sabia naqueles tempos sem internet que os discos venderam muito e tocaram demais na África do Sul, criando milhares de fãs ávidos por informações sobre ele, que não existiam. Rodriguez foi redescoberto quarenta anos depois, graças ao fantástico documentário “Searching For Sugar Man”, vencedor do Oscar de 2012. Nessas quatro décadas, Rodriguez criou sua família, trabalhou na construção civil, continuou sua vida, sua penitência, seu cotidiano de homem comum. Mesmo sem lançar discos, nunca deixou de acreditar que sua arte era bem feita, vinha da alma. O sucesso veio. Logo depois do Oscar, fez uma turnê mundial, todas as datas esgotadas meses antes. Tive a oportunidade de ver um desses shows em New Orleans, ano passado. Vê-lo no palco, velho, doente, quase cego, mas cantando com uma energia de iniciante, renovou minhas crenças na penitência que temos que passar para chegar em algum lugar. Acredite. 

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O falso e o último beijo

Foi destaque nas redes sociais, em vários sites, um vídeo sobre pessoas que se beijavam pela primeira vez. Trata-se de uma bem aplicada peça publicitária de uma marca de roupas – todos vestidos adequadamente, atores, talvez. O vídeo passou da casa dos 100 milhões de views, arrancando suspiros de amor por todos os cantos. Teria ignorado, mas caraminholas teimavam na minha cabeça. Por que se emocionar com um comercial estrategicamente programado? Culpa da vida asséptica, plastificada, preguiçosa e pragmática que vivemos. Esquecemos de aproveitar a viagem de olho no ponto de chegada.  E o que justamente vale é a viagem. É a melhor sensação.

Conheci um jovem estudante de jornalismo que me disse que não gosta de ler nada. Estuda para ser âncora de TV – ou apresentador. Deixa de aproveitar o tempo em que pode só estudar para conhecer referências, textos clássicos, de olho na fama na padaria. Tem muita gente que prefere o sossego de um amor sem solavancos do que mergulhar na ladeira do coração verdadeiramente apaixonado. Ama na mesma intensidade de se alegrar com um download rápido.

Quer um belo vídeo de amor com sentimento de verdade? A artista croata Marina Abramovic fez uma exposição anos atrás onde ela ficava sentada numa cadeira encarando quem quer que sentasse na frente dela. Ela ficou lá olhando seriamente para todo tipo de pessoa durante três meses. Até que um dia pintou na sua frente o amor da sua vida, sua alma gêmea. Ulay também é artista plástico. Tiveram um apaixonado e bruscamente interrompido romance no passado. Não se viam há vinte anos. Repito: vinte anos sem se ver. O resultado é esse:

Lágrimas devidamente enxugadas, vamos juntar toda essa digressão com cultura, razão pelo qual esse sofrido arrazoado existe. Um dos principais nomes do jornalismo esportivo do país José Trajano acaba de lançar o livro “Procurando Mônica”. Quem se liga em esportes saca que o Trajano é um cara contundente, com fortes princípios, fã de debates acalorados desde os tempos de “Cartão Verde”. Mas debaixo daquela cara de mau existe um coração partido. E o jornalista contundente expõe todas as suas feridas sem medo no livro. Trajano fala de Mônica, amor da sua vida, sua grande paixão adolescente do carnaval de Rio das Flores, no Rio de Janeiro, e dos foras que tomou dela durante 40 anos de encontros e desencontros. Como faz quando comenta futebol, Trajano também não mede palavras quando fala de amor. E o livro é uma saborosa odisséia de um apaixonado mundo afora atrás de sua musa. Um retrato de um tempo em que não se escolhia amores nas prateleiras de aplicativos. Hoje, não se espera 40 minutos por alguém.

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“Procurando Mônica” é surpreendente. Por ouvir uma desesperada história dessas de amor. De saber que alguém ainda tem a coragem de escrever essas coisas – foi nas páginas dele que descobri esse vídeo emocionante da Marina Abramovic e do Ulay. Emoções verdadeiras, como as palavras do Trajano. Sempre se fez boa arte com o coração na ponta da chuteira. Valorize. Minha ideia de amor ideal nasceu da primeira vez que ouvi Cazuza cantar “eu quero a sorte de um amor tranquilo / com sabor de fruta mordida / nós na batida, no embalo da rede / Matando a sede na saliva / Ser teu pão, ser tua comida / Todo amor que houver nessa vida / E algum trocado pra dar garantia”. Parece perfeito. Dá trabalho.