O falso e o último beijo

Foi destaque nas redes sociais, em vários sites, um vídeo sobre pessoas que se beijavam pela primeira vez. Trata-se de uma bem aplicada peça publicitária de uma marca de roupas – todos vestidos adequadamente, atores, talvez. O vídeo passou da casa dos 100 milhões de views, arrancando suspiros de amor por todos os cantos. Teria ignorado, mas caraminholas teimavam na minha cabeça. Por que se emocionar com um comercial estrategicamente programado? Culpa da vida asséptica, plastificada, preguiçosa e pragmática que vivemos. Esquecemos de aproveitar a viagem de olho no ponto de chegada.  E o que justamente vale é a viagem. É a melhor sensação.

Conheci um jovem estudante de jornalismo que me disse que não gosta de ler nada. Estuda para ser âncora de TV – ou apresentador. Deixa de aproveitar o tempo em que pode só estudar para conhecer referências, textos clássicos, de olho na fama na padaria. Tem muita gente que prefere o sossego de um amor sem solavancos do que mergulhar na ladeira do coração verdadeiramente apaixonado. Ama na mesma intensidade de se alegrar com um download rápido.

Quer um belo vídeo de amor com sentimento de verdade? A artista croata Marina Abramovic fez uma exposição anos atrás onde ela ficava sentada numa cadeira encarando quem quer que sentasse na frente dela. Ela ficou lá olhando seriamente para todo tipo de pessoa durante três meses. Até que um dia pintou na sua frente o amor da sua vida, sua alma gêmea. Ulay também é artista plástico. Tiveram um apaixonado e bruscamente interrompido romance no passado. Não se viam há vinte anos. Repito: vinte anos sem se ver. O resultado é esse:

Lágrimas devidamente enxugadas, vamos juntar toda essa digressão com cultura, razão pelo qual esse sofrido arrazoado existe. Um dos principais nomes do jornalismo esportivo do país José Trajano acaba de lançar o livro “Procurando Mônica”. Quem se liga em esportes saca que o Trajano é um cara contundente, com fortes princípios, fã de debates acalorados desde os tempos de “Cartão Verde”. Mas debaixo daquela cara de mau existe um coração partido. E o jornalista contundente expõe todas as suas feridas sem medo no livro. Trajano fala de Mônica, amor da sua vida, sua grande paixão adolescente do carnaval de Rio das Flores, no Rio de Janeiro, e dos foras que tomou dela durante 40 anos de encontros e desencontros. Como faz quando comenta futebol, Trajano também não mede palavras quando fala de amor. E o livro é uma saborosa odisséia de um apaixonado mundo afora atrás de sua musa. Um retrato de um tempo em que não se escolhia amores nas prateleiras de aplicativos. Hoje, não se espera 40 minutos por alguém.

Imagem

“Procurando Mônica” é surpreendente. Por ouvir uma desesperada história dessas de amor. De saber que alguém ainda tem a coragem de escrever essas coisas – foi nas páginas dele que descobri esse vídeo emocionante da Marina Abramovic e do Ulay. Emoções verdadeiras, como as palavras do Trajano. Sempre se fez boa arte com o coração na ponta da chuteira. Valorize. Minha ideia de amor ideal nasceu da primeira vez que ouvi Cazuza cantar “eu quero a sorte de um amor tranquilo / com sabor de fruta mordida / nós na batida, no embalo da rede / Matando a sede na saliva / Ser teu pão, ser tua comida / Todo amor que houver nessa vida / E algum trocado pra dar garantia”. Parece perfeito. Dá trabalho.

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2 thoughts on “O falso e o último beijo

  1. Adorei esse vídeo, emoção pura! E gostei das suas ponderações… 🙂

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