Os vários Brasis da Copa do Mundo

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O mexicano Eric Tejeda circulava de ônibus por Natal. Na saída, esqueceu sua mochila na condução com nove ingressos para jogos da Copa – Brasil e México, entre eles – cartões de crédito, dinheiro, etc. Ao seu lado estava Luzimar, enfermeira, a caminho do trabalho onde cuida de uma senhora. Luzimar achou a mochila, na casa onde trabalha pediu ajuda para a família que a emprega e se iniciou uma caça ao dono da mochila. Ligações internacionais tiveram que serem feitas, abordagens em outros mexicanos pela cidade para tentar identificar o compatriota, posts em redes sociais, um mega esforço. Eric foi encontrado. Emocionado, agradeceu a todos com presentes.

No sofá de casa, entre amigos, um legítimo representante da elite branca que paga 100 reais num prato de macarrão, mas reclama da falta de mobilidade urbana prometida pelo governo mesmo sem nunca, repito, nunca, na vida ter entrado num ônibus, discursa sobre a roubalheira do Mundial, de como os gringos são trouxas de virem para cá, que merecem ser extorquidos, assaltados, de como esse é um país de bandidos, celebra a recente escolha do candidato do PSDB, na cabeça dele, nossa única chance de escaparmos de nos tornarmos uma nova Venezuela – seja lá o que isso quer dizer na cabeça dele. Ele, claro, apoiou todos os palavrões que foram direcionados à presidente Dilma na abertura do Mundial. Perguntei se ele também apoiaria se aquela senhora xingada fosse a mãe dele. Mudou de assunto dizendo que se o Brasil ganhar essa Copa, independente do time de Felipão comer a bola, seria a prova cabal de uma grande armação do PT para ganhar a eleição. E nos transformar numa nova Venezuela.

Dentro de Campo. Esse tem sido o melhor começo de Copa que já vi na vida. A estreia do Brasil foi movimentada, cheia de discussões, Neymar fazendo gol. Espanha e Holanda foi maravilhoso. A vitória da Costa Rica sobre o Uruguai, que a colocou na liderança de um grupo que ainda tem Inglaterra e Itália é daqueles mistérios que fazem a gente se apaixonar pelo futebol. Até Japão e Costa do Marfim, no fim da noite de sábado, fizeram uma boa partida cheia de gols. O tal chipe na bola, grande revolução tecnológica, apareceu bem no jogo da França com Honduras, batata quente que estourou pela primeira vez, claro, nas mãos de um juiz brasileiro. Hoje, logo mais, tem Alemanha e Portugal, outro jogo que promete. Impossível não se envolver com os jogos.

Pelo país. Japoneses tomam caipirinha as 7h da manhã em Natal. Argentinos tomando conta de Copacabana. Alemães maravilhados com a Bahia. Ingleses e italianos enchendo a cara em Manaus. Dei uma banda pela Vila Madalena, bairro boêmio de São Paulo, na madrugada de sábado e as ruas estavam lotadas. Todo mundo celebrando com todo mundo, uma festa. Nas arquibancadas, fantasias, rostos pintados, aquela fauna engraçada que não existe mais nos jogos dos campeonatos brasileiros. Apesar da Fifa, impossível não concordar que essa loucura tem sido bem legal.

A Copa do Mundo do Brasil tem ajudado a mostrar um novo país para quem saiu do seu e veio curtir por aqui. Mostrou para os estrangeiros que podemos ser festeiros, mas que as coisas aqui até que funcionam e sabemos sediar um evento desses, ainda que atrapalhados. E que, na maioria, somos como a Luzimar do começo do texto – honestos, acreditamos em nós, brasileiros. Para aqueles que esperam a salvação enquanto esperam seu prato de macarrão de 100 reais, repetindo teorias e propagando preconceitos, sugiro um papo com qualquer gringo num boteco qualquer desse país: vocês vão aprender muito sobre seu próprio país.

 

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