Fernando Pessoa – para pensar

Sortimento

Bom dia!!

Depois de ver um trecho desse poema no texto do Glück Project que citei neste post, lembrei que eu tinha ele salvo aqui, para um dia postar. Então acho que o momento é esse.

Poema em linha reta

Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

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A seleção foi bem representativa da cultura brasileira dos últimos tempos. Chorona, ressentida, delirante, sem resultados.

Como a era Lula, muitos achavam que sairíamos do buraco com a “bolsa-voto”, casas de graça, carros sem impostos e outras invenções baratas.

A palavra “autoestima” foi muito ouvida nos últimos tempos, principalmente na Copa. É comum hoje as pessoas acharem  que todo mundo (e a mídia também) deve se preocupar antes de tudo com a autoestima de todos. Discordo. É este mundo da autoestima que forma os amarelões.

– Luiz Felipe Pondé magistralmente definindo a geração selfudeu na Copa do Brasil

Pondé matando a pau

O medo do novo sempre paralisou o brasileiro

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Carlos Alberto Parreira, o coordenador técnico da seleção brasileira, aquele que durante a coletiva no dia seguinte ao vexame, sacou a cartinha da Dona Lúcia, apoiando o elenco e matou toda a nação de vergonha, um dia foi moderno. Em 2002, quando dirigiu o Corinthians, ganhou dois títulos jogando ofensivamente, com base num toque de bola preciso, sempre com a premissa de que quanto mais um time tivesse a posse de bola, menos chance ele teria de levar gols. Esse estilo influenciou até o Barcelona genial de Pep Guardiola, o próprio já disse isso.

 

Esse time vencedor do Corinthians credenciou Parreira a comandar a seleção de 2006, uma das melhores gerações que tivemos, e o técnico a levou para o buraco. Parreira ficou com medo de avançar na sua modernidade e, como é de praxe aqui no Brasil, apostou em velhas fórmulas e manias que um dia deram certo. Brasileiro gosta disso: de repetir e tentar emular o que um dia deu certo em detrimento a arriscar em algo totalmente novo.

 

Nessa época de sucesso, Parreira palestrava Brasil afora ensinando empresas a formarem equipes modernas e competitivas. É sério, procura por aí que você vai achar até um livro dele com esse título. Se dentro de campo influenciou até Guardiola, no mundo corporativo me arrisco a dizer que o Pé de Uva também deu um apoio à mentalidade politicamente correta e chata das empresas e da vida que vivemos hoje.

 

Hoje, dentro e fora do seu emprego, você precisa agir assim ou assado, rezando numa série de regras, para não se tornar um pária. Você precisa ter Facebook, andar com uma garrafinha de água como se fosse o elixir da juventude, comer de três em três horas, fazer corrida, academia, ser contra a gordura, o açúcar, o chope, a Dilma e a favor de frases que dificilmente foram realmente escritas por Clarice Lispector. Basicamente, é assim que você tem que agir. E é assim que esperam que você aja. Até mesmo os lugares onde a criatividade é exigida, te cobram um balancete equilibrado. Ainda que você entregue os resultados esperados, nada é relevante se no caminho não rezou categoricamente na cartilha politicamente correta. “Operacional”, a palavra da moda. Se enquadre, faça como antigamente, tudo vai se encaixar e dar certo. Foi assim que Parreira e Felipão pensaram que seria contra a Alemanha.

 

Parreira deve ter influenciado muitos gestores com seu pensamento de resultados, onde o “gol é só um detalhe”. Em seus times, só gostava de funcionário-padrão. Taí a metáfora.

E assim seguimos vivendo no reino do arroz com feijão, sem muita firula, porque é perda de tempo. É estranho. Nunca tivemos tantos recursos de informação disponíveis. Você grava um disco em casa. Você escreve um livro em casa e, se ninguém quiser publicar, pode ser colocado na internet e ser um sucesso ainda assim. É possível trocar idéias com um japonês sobrevivente do tsunami com a mesma facilidade com que se compra um cachorro-quente na esquina. Aí a gente pega tudo isso e… enquadra.

 

Se esse tipo de pensamento tivesse regido o mundo desde o começo, jamais teríamos inventado a pipoca. Com esse tipo de pensamento estamos desinventando (sic) nossa arte mais abusada. Faço minha parte não me enquadrando.

La carta de Camus a su viejo maestro después de ganar el Premio Nobel

Em 1930, Camus era o São Pedro que tomava conta da porta da equipe de futebol da Universidade de Argel. Tinha se acostumado a jogar como goleiro desde menino, porque essa era a posição em que o sapato gastava menos sola. Filho de família pobre, Camus não podia se dar ao luxo de correr pelo campo; toda noite, a avó revisava as solas e dava uma surra nele, se estivessem gastas. 

Durante seus anos de goleiro, Camus aprendeu muita coisa:

– Aprendi que a bola nunca vem para a gente por onde se espera que venha. Isso me ajudou muito na vida, principalmente nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente acha que são as pessoas direitas. 

Também aprendeu a ganhar sem se sentir Deus e a perder sem se sentir um lixo, sabedorias difíceis, e aprendeu alguns mistérios da alma humana, em cujos labirintos soube se meter depois, em viagem perigosa, ao longo de seus livros

 

– De “Futebol ao Sol e à Sombra”, de Eduardo Galeano

Ganhar sem se sentir Deus, perder sem se sentir um lixo

A redenção só vem com dedicação

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A minha geração é a segunda mais mimada da história. Eu e os da minha época (adolescentes nos anos 1990) crescemos assistindo Sessão da Tarde demais, acreditando muito nos filmes românticos da Meg Ryan, nas facilidades tecnológicas que nos foram apresentadas a cada mês. Crescemos acreditando que éramos merecedores de fazer somente coisas grandiosas. A geração mais mimada de todos os tempos foi a seguinte (adolescentes nos anos 2000). Porque acrescentaram todos os mimos da minha à certeza de que merecem tudo com o esforço e na velocidade de um download de 200 gigas, eles realmente acreditam que em todos os setores da vida são subestimados e foram talhados somente para o fino da bossa.

 

Por isso, temos uma geração de desistentes. Tenho uma amiga que estudou nas melhores faculdades, correu o mundo, tem bom gosto, conhece música, cinema, literatura, mas não consegue ficar em nenhum emprego. Ela acredita que em todos ela faz menos do que realmente merece fazer – e que as pessoas não são lindas e fofas como numa música do Los Hermanos. Vive em casa, sonha sustentada pelos pais, chora enquanto zapeia por 345 canais pagos, enquanto ninguém descobre sua genialidade. Esse é um resumo de vários jovens profissionais que eu conheço, não estou exagerando. Meu conselho é um: redenção só vem com dedicação.

 

E a Copa ensina. Veja o melhor jogador eleito pela Fifa na primeira fase do Mundial, o colombiano James Rodríguez, nosso próximo adversário. Foi largado pelo pai quando criança, criado pela mãe sozinha, garoto tímido, gago. Vida dura, amigo. Foi ganhando seu espaço nos times por onde passou. Graças a sua genialidade em campo e, também, pela generosidade de sempre preferir servir seus companheiros a ele mesmo marcar. Antes da Copa a única coisa que se ouvia da Colômbia era sobre a contusão que tirou seu nome mais famoso, o atacante Falcão Garcia. Nem se falava em Rodríguez. Nem ele próprio. Respondeu em campo com golaços e assistências. Quando marca gol, beija o braço onde tem tatuado o nome da filha. É casado, adora estar com a esposa, não é de badalações, mesmo ainda sendo um menino de 22 anos. Ele entrou nessa vida para ter tudo que não teve quando criança: emprego, bom salario, uma família. A redenção veio com a muita dedicação que aplica em campo.

 

A Argélia que entrou em campo ontem contra a Alemanha tinha mais vontade de ganhar do que simplesmente avançar na Copa do Mundo. Precisava reparar um assunto engasgado. Na Copa de 1982, a Alemanha fez um jogo de compadres com a Áustria somente para desclassificar a Argélia. Essa partida é conhecida como “o jogo da vergonha”.

 

Essa vontade de ganhar que a seleção argelina mostrou ontem e em toda a Copa, tem muito do técnico Vahid Halihodzic. Também na Copa de 82, Halihodzic foi o grande nome da Iugoslávia antes do torneio, mas acabou barrado no Mundial, por conta de interesses comerciais. Sua seleção foi eliminada na primeira fase. Desde então, Halihodzic tem um princípio: somente escalar quem realmente merece jogar, como conta o grande Paulo Vinicius Coelho, da ESPN Brasil. “Seu objetivo é sempre fazer justiça”, diz PVC.

 

Justiça, redenção, sucesso. Coisa que muita gente hoje persegue, mas nem desconfia que isso só vem com muita dedicação. Tem que suar, amigo.