O medo do novo sempre paralisou o brasileiro

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Carlos Alberto Parreira, o coordenador técnico da seleção brasileira, aquele que durante a coletiva no dia seguinte ao vexame, sacou a cartinha da Dona Lúcia, apoiando o elenco e matou toda a nação de vergonha, um dia foi moderno. Em 2002, quando dirigiu o Corinthians, ganhou dois títulos jogando ofensivamente, com base num toque de bola preciso, sempre com a premissa de que quanto mais um time tivesse a posse de bola, menos chance ele teria de levar gols. Esse estilo influenciou até o Barcelona genial de Pep Guardiola, o próprio já disse isso.

 

Esse time vencedor do Corinthians credenciou Parreira a comandar a seleção de 2006, uma das melhores gerações que tivemos, e o técnico a levou para o buraco. Parreira ficou com medo de avançar na sua modernidade e, como é de praxe aqui no Brasil, apostou em velhas fórmulas e manias que um dia deram certo. Brasileiro gosta disso: de repetir e tentar emular o que um dia deu certo em detrimento a arriscar em algo totalmente novo.

 

Nessa época de sucesso, Parreira palestrava Brasil afora ensinando empresas a formarem equipes modernas e competitivas. É sério, procura por aí que você vai achar até um livro dele com esse título. Se dentro de campo influenciou até Guardiola, no mundo corporativo me arrisco a dizer que o Pé de Uva também deu um apoio à mentalidade politicamente correta e chata das empresas e da vida que vivemos hoje.

 

Hoje, dentro e fora do seu emprego, você precisa agir assim ou assado, rezando numa série de regras, para não se tornar um pária. Você precisa ter Facebook, andar com uma garrafinha de água como se fosse o elixir da juventude, comer de três em três horas, fazer corrida, academia, ser contra a gordura, o açúcar, o chope, a Dilma e a favor de frases que dificilmente foram realmente escritas por Clarice Lispector. Basicamente, é assim que você tem que agir. E é assim que esperam que você aja. Até mesmo os lugares onde a criatividade é exigida, te cobram um balancete equilibrado. Ainda que você entregue os resultados esperados, nada é relevante se no caminho não rezou categoricamente na cartilha politicamente correta. “Operacional”, a palavra da moda. Se enquadre, faça como antigamente, tudo vai se encaixar e dar certo. Foi assim que Parreira e Felipão pensaram que seria contra a Alemanha.

 

Parreira deve ter influenciado muitos gestores com seu pensamento de resultados, onde o “gol é só um detalhe”. Em seus times, só gostava de funcionário-padrão. Taí a metáfora.

E assim seguimos vivendo no reino do arroz com feijão, sem muita firula, porque é perda de tempo. É estranho. Nunca tivemos tantos recursos de informação disponíveis. Você grava um disco em casa. Você escreve um livro em casa e, se ninguém quiser publicar, pode ser colocado na internet e ser um sucesso ainda assim. É possível trocar idéias com um japonês sobrevivente do tsunami com a mesma facilidade com que se compra um cachorro-quente na esquina. Aí a gente pega tudo isso e… enquadra.

 

Se esse tipo de pensamento tivesse regido o mundo desde o começo, jamais teríamos inventado a pipoca. Com esse tipo de pensamento estamos desinventando (sic) nossa arte mais abusada. Faço minha parte não me enquadrando.

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