Capturando raios

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Ela acendeu um baseado, levantou, bateu a areia na saia jeans e tirou a calcinha. Sentou. Falou entre o determinado e o sexy:

 

– Me chupa.

 

E deitou sobre a toalha que usavam como canga. Ele obedeceu. Ela aproveitava todos os prazeres acumulados com os olhos fechados, a cabeça caída para trás. A luz da lua parecia rebater seus cabelos. O som do mar, calmo, fazia um delicioso contraste com a eletricidade entre os dois. Ele levantava os olhos e de relance admirava sua boca, seu sorriso apertado, sua expressão lânguida. Gemidos querendo sair, contidos, em respeito ao silêncio da praia. Arrepios. Paz.

– Esse foi um dos momentos que não vou esquecer – disse ela.

– Torço pra isso – ele, esperançoso.

– Eu estou falando sério. Não é só aquele negócio “ah, foi legal, nunca vou esquecer isso, obrigada”. Esse momento eu não quero esquecer, porque não sei o que me levou a fazer isso, mas fiz, era o que eu queria sentir. Sabe aqueles momentos em que as coisas acontecem do nada?

– Sou sempre a favor de momentos que acontecem do nada.

– Eu estou falando sério, de verdade, para de piada. Assim que eu sentei, do nada, eu pensei: “quero aproveitar e lembrar de cada segundo do que vai acontecer agora”.

– Você está muito louca.

– É verdade. Tem um monte de coisa que acontece nas nossas vidas que são espetaculares e a gente percebe que não aproveitou intensamente aquele momento. Curte depois e tal, mas fica um pedacinho faltando, ter mergulhado com tudo. Mas é a culpa dessas coisas que acontecem do nada.

– É a beleza das coisas que acontecem do nada. Te pegam de surpresa, nem dá tempo de pensar.

– Eu fiz diferente. Veio do nada e numa fração de segundo me preparei para aproveitar cada segundo desse momento do nada. Foi doido. Eu capturei um raio, um trovão. Já pensou se a gente sempre conseguisse fazer isso?

– Poderíamos correr o risco de reavaliar o momento do nada no futuro e chegarmos a conclusão de que não foram tão do caralho como eram nas nossas lembranças. Poderia não ter sido do caralho agora. Poderia chegar alguém. A maré poderia ter subido. Eu poderia não ter feito o trabalho direito.

– Quer confete, né? Vai ficar querendo.

– Era a ideia. Eu tentei…

– Esse é um momento pra gente curtir. Sem confetes. Vamos ficar aproveitando o pós momento do caralho que aconteceu do nada e eu capturei o raio – diz ela num sorriso, deitando na areia.

– Eu adoro suas teorias. Eu adoro você – diz ele, enquanto dedilha os cabelos dela. Ele olha baixo, entre os eflúvios da marofa e a paixão. Se apaixona por aquela beleza sob à lua. Pela pele, pelo sorriso. Ele quer pega-la nos braços e capturar todos os raios futuros.

– Sem confetes… Já falei.

– Não consigo. Adoro seu cheiro.

– Que cheiro?

– O seu. Mexe comigo. Fico em paz quando sinto seu cheiro. É um raio incapturável. Você não consegue sentir nada de diferente, você já se acostumou. Eu sinto intensamente. É seu, mas é meu. É o seu meu cheiro que me deixa em paz.

– Eu que estou muito louca, né? Não tenho certeza que exista a frase incapturável.

– Você é capaz de fazer poetas inventarem palavras.

– Incrível como você passeia entre o Odair José e o Chico Buarque na qualidade das suas cantadas.

– Elas vêm assim. Do nada.

– Mas não são do caralho, acredite.

– Você caiu.

– Um deslize louco que me acometeu. Veio assim. Do nada. O que será que eu vi em você?

– Apesar de me desmerecer, seu senso de humor é uma das coisas que mais gosto em você. Além do meu charme, a gente tem muito a ver. Você não pode negar isso. E era o destino. O destino quer a gente junto. Já pensou no monte de voltas que o destino teve que dar para nos unir? Tem uma razão.

– O destino até te fez ter um caso com a minha melhor amiga para nos unir. Engraçadinho esse destino…

– Não questione. Deu certo. O destino interfere na vida das pessoas. O destino nos uniu e pode nos manter unidos. Ou então nunca nos unir de verdade.

– Ainda acho que o destino agiu estranhamente no nosso caso.

– Faz parte da beleza da coisa. É inexplicável, imprevisível e totalmente fora de controle ou entendimento.

– Tem alguma prova disso tudo?

– Sabe que é tudo absurdo e irracional?

– Então por que acredita?

– Porque sim. Era a única maneira da gente acreditar que poderia dar certo. A gente veio pra cá impulsionados pela crença no que destino reservou pra gente aqui. Nós somos pessoas que acreditamos em destino, sinais, energias, essas coisas. Vimos “Sessão da Tarde” demais quando crianças.

– Tive uma ideia louca que veio agora do nada.

– Sua vez de chupar agora.

– Hein?

– Qual é a sua ideia?

– Desencanar da vida e ficar aqui nessa ilha, nessa vila, nessa praia deserta. Sem luz, sem banho quente, sem celular, internet, Facebook, trânsito, chatices. Vamos viver de sol, mar, cerveja, baseado e amor. Topa?

– A gente não aguentaria três dias.

– Cadê o poeta Odair José, crédulo do destino? Vamos ficando e a gente descobre o que o destino reserva pra gente disso. Topa?

– A gente não aguentaria três dias.

– Vamos deixar o destino resolver se a gente aguenta ou não. Você me fala esse papo todo, quer que eu acredite mas não mostra toda essa crença no abstrato na prática. Diz que sim. Por mim. Só quero saber se você tem coragem mesmo de largar tudo por mim e deixar o destino tomar as rédeas pra ver onde vai dar. Tem coragem?

– Tá bom – concordou, ele.

– Então tá. Vamos ficar aqui – sentenciou ela, acendendo outro baseado.

A lua, testemunha, foi se despedindo. Eles ficaram. Na praia, no sol, com mar, cerveja, baseados, amor, capturando raios.

Por quatro dias.

 

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