A arte de ser infeliz (Paulo Mendes Campos Remix 2014)

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O homem perfeitamente infeliz acredita que a vida é um eterno recomeço e tem direito de desistir de tudo a qualquer tempo; coleciona despedidas como arquivos de mp3 no disco rígido; tem saúde de ferro, só se alimenta de produtos orgânicos; leva uma garrafa de água por onde anda como se fosse o elixir da juventude; seus males físicos são apenas dois: dor de cabeça (mas não toma comprimidos para não alimentar a indústria farmacêutica e, ato contínuo, porque não ingere químicos) e indignação (dispensa ansiolíticos, mas desabafa no Facebook enquanto consome cerveja gourmet).

O pai e o avô do homem infeliz morreram quase aos noventa anos – e ele o diz frequentemente, sempre lembrando que se continuarmos comendo carne, nossa geração não vai chegar lá.

Banho frio por princípio, mesmo no inverno – é um defensor ferrenho do meio-ambiente -, e uma hora e meia de ginástica diária, alterna entre caminhadas, “bike” e pilates.

O homem perfeitamente infeliz julga-se ameaçado: ao norte, pela queda de cabelo; ao sul, pelo partidos de direita que espalham mentiras (ou pelos partidos de esquerda, que querem fazer daqui uma nova Venezuela, existem homens perfeitamente infelizes dos dois lados); a leste, pelo 3g que não funciona; a oeste, pela depravação dos costumes, mas curte mandar fotos amadoras de sexo pelo whatsapp.

Não empresta dinheiro; não deve nada a ninguém; toma notas minuciosas de todas as suas despesas; nunca pagou nada para os outros; não avaliza notas promissórias nem para o próprio filho – na verdade o homem perfeitamente infeliz nem tem filhos e é contra o casamento formal – e tem manifesto orgulho disso. Apesar de ter sacado a grana do cheque especial para cobrir aquela viagem a Europa – o homem infeliz é contra os Estados Unidos imperialistas.

Toma conhecimento de todas as revoluções artísticas e literárias modernas: gênio é o Marcelo Camelo; brasileiro é o Marcelo Camelo; saber português é o Marcelo Camelo.

Usar gerúndio em oração é para ele um crime contra o idioma pátrio, embora seja esta toda a sua ciência a respeito de gramática.

Em sua sala de jantar, o puzzle de um desenho do Romero Britto emoldurado, que ele mesmo montou, quase 10 mil peças.

A força de vontade do homem perfeitamente infeliz é tremenda: ele parou de assistir a Globo e a comer carne há cinco anos, três meses, doze dias. Se não parou, vai parar a qualquer momento.

Homofóbico, embora só confesse aos mais íntimos. Estuda teatro, tem vários amigos gays e repete isso a todo momento; é ateu, acha o catolicismo um freio, claro.

Sua simpatia política é de esquerda, está sempre do lado das minorias e dos menos favorecidos, escreve textos gigantes em defesa dos excluídos direto do seu jardim de inverno, na sua casa de condomínio.

Acha (e infelizmente é verdade) insubstituível em seu trabalho; o escritório não anda sem ele. As redes sociais são o seu recreio mental mais importante; ver séries americanas de TV enriquece seus argumentos nas rodas de bares que vendem chope a 10 reais.

Conhece o preço de todos os gêneros e de todos os objetos usuais; está de olho em qualquer operação lucrativa que subjuga todos os princípios defendidos com orgulho.

Sua psicologia: o mundo ainda vai descobrir minha genialidade.

Sua economia: pagar sempre menos desvalorizando a importância do trabalho ou do produto alheio.

Sociologia: crack é uma doença, mas aqueles viciados me atrapalham quando quero estacionar no centro.

Filosofia: sou sempre melhor do que o que me oferecem.

Considera-se dono de um excelente bom humor; cita ditos históricos e provérbios edificantes; sua glória é poder afirmar, diante de alguém em desgraça: “Bem que eu te avisei!”.

Não diz “minha mulher”, mas a chama de um apelido pretensamente elaborado, sempre com uma boa história por trás. Ela é muito mais perfeitamente infeliz do que ele e nem se dá conta disso.

O mal profundo do homem perfeitamente infeliz é julgar-se um homem perfeitamente feliz.

(essa é uma versão moderna do homem perfeitamente infeliz, descrito pelo mestre Paulo Mendes Campos, na revista Manchete de 1960. Qualquer semelhança com o homem perfeitamente infeliz de hoje em dia, foi essa a ideia mesmo)

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La carta de Camus a su viejo maestro después de ganar el Premio Nobel

Em 1930, Camus era o São Pedro que tomava conta da porta da equipe de futebol da Universidade de Argel. Tinha se acostumado a jogar como goleiro desde menino, porque essa era a posição em que o sapato gastava menos sola. Filho de família pobre, Camus não podia se dar ao luxo de correr pelo campo; toda noite, a avó revisava as solas e dava uma surra nele, se estivessem gastas. 

Durante seus anos de goleiro, Camus aprendeu muita coisa:

– Aprendi que a bola nunca vem para a gente por onde se espera que venha. Isso me ajudou muito na vida, principalmente nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente acha que são as pessoas direitas. 

Também aprendeu a ganhar sem se sentir Deus e a perder sem se sentir um lixo, sabedorias difíceis, e aprendeu alguns mistérios da alma humana, em cujos labirintos soube se meter depois, em viagem perigosa, ao longo de seus livros

 

– De “Futebol ao Sol e à Sombra”, de Eduardo Galeano

Ganhar sem se sentir Deus, perder sem se sentir um lixo

O falso e o último beijo

Foi destaque nas redes sociais, em vários sites, um vídeo sobre pessoas que se beijavam pela primeira vez. Trata-se de uma bem aplicada peça publicitária de uma marca de roupas – todos vestidos adequadamente, atores, talvez. O vídeo passou da casa dos 100 milhões de views, arrancando suspiros de amor por todos os cantos. Teria ignorado, mas caraminholas teimavam na minha cabeça. Por que se emocionar com um comercial estrategicamente programado? Culpa da vida asséptica, plastificada, preguiçosa e pragmática que vivemos. Esquecemos de aproveitar a viagem de olho no ponto de chegada.  E o que justamente vale é a viagem. É a melhor sensação.

Conheci um jovem estudante de jornalismo que me disse que não gosta de ler nada. Estuda para ser âncora de TV – ou apresentador. Deixa de aproveitar o tempo em que pode só estudar para conhecer referências, textos clássicos, de olho na fama na padaria. Tem muita gente que prefere o sossego de um amor sem solavancos do que mergulhar na ladeira do coração verdadeiramente apaixonado. Ama na mesma intensidade de se alegrar com um download rápido.

Quer um belo vídeo de amor com sentimento de verdade? A artista croata Marina Abramovic fez uma exposição anos atrás onde ela ficava sentada numa cadeira encarando quem quer que sentasse na frente dela. Ela ficou lá olhando seriamente para todo tipo de pessoa durante três meses. Até que um dia pintou na sua frente o amor da sua vida, sua alma gêmea. Ulay também é artista plástico. Tiveram um apaixonado e bruscamente interrompido romance no passado. Não se viam há vinte anos. Repito: vinte anos sem se ver. O resultado é esse:

Lágrimas devidamente enxugadas, vamos juntar toda essa digressão com cultura, razão pelo qual esse sofrido arrazoado existe. Um dos principais nomes do jornalismo esportivo do país José Trajano acaba de lançar o livro “Procurando Mônica”. Quem se liga em esportes saca que o Trajano é um cara contundente, com fortes princípios, fã de debates acalorados desde os tempos de “Cartão Verde”. Mas debaixo daquela cara de mau existe um coração partido. E o jornalista contundente expõe todas as suas feridas sem medo no livro. Trajano fala de Mônica, amor da sua vida, sua grande paixão adolescente do carnaval de Rio das Flores, no Rio de Janeiro, e dos foras que tomou dela durante 40 anos de encontros e desencontros. Como faz quando comenta futebol, Trajano também não mede palavras quando fala de amor. E o livro é uma saborosa odisséia de um apaixonado mundo afora atrás de sua musa. Um retrato de um tempo em que não se escolhia amores nas prateleiras de aplicativos. Hoje, não se espera 40 minutos por alguém.

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“Procurando Mônica” é surpreendente. Por ouvir uma desesperada história dessas de amor. De saber que alguém ainda tem a coragem de escrever essas coisas – foi nas páginas dele que descobri esse vídeo emocionante da Marina Abramovic e do Ulay. Emoções verdadeiras, como as palavras do Trajano. Sempre se fez boa arte com o coração na ponta da chuteira. Valorize. Minha ideia de amor ideal nasceu da primeira vez que ouvi Cazuza cantar “eu quero a sorte de um amor tranquilo / com sabor de fruta mordida / nós na batida, no embalo da rede / Matando a sede na saliva / Ser teu pão, ser tua comida / Todo amor que houver nessa vida / E algum trocado pra dar garantia”. Parece perfeito. Dá trabalho.